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Niterói, a tragédia em primeira pessoa

Depoimento de: Priscila Fagundes

Acordei por volta das 2h da manhã de terça-feira, dia 6, alarmada com um grande estrondo. Mal havia levantado da cama, ainda sonolenta, meu marido entrou no quarto falando para eu ficar tranquila, que havia acontecido algo na rua, mas que estava tudo bem. Depois, ele me levou na janela da sala e me mostrou: acabara de acontecer um gigantesco deslizamento de terra bem ao lado do nosso prédio, que fica na Estrada Leopoldo Fróes, no bairro de São Francisco, em Niterói. Enquanto eu ainda tentava entender direito o que acontecera, vimos pessoas lá embaixo, na rua, gritando para familiares que era melhor abandonar os apartamentos. Rapidamente corremos para mudar de roupa. Enquanto calçávamos o tênis, um novo estrondo. Sem saber o que era dessa vez, foi apenas o tempo de pegar as chaves do carro, a carteira, a bolsa, e descermos quatro andares escada abaixo.
Quando chegamos na portaria do prédio, vimos o que causara o segundo estrondo: uma pedra havia despencado e caído no estacionamento. Já havia muita gente ali, mas ninguém se feriu. Demos de cara com um morador do prédio todo sujo de barro, com a perna toda ferida, muito nervoso, dizendo que foi preciso se atirar ao chão para escapar do deslizamento, que por muito pouco não o soterrou. Foi quando meu marido começou a me explicar o que havia acontecido antes de eu acordar. Ele, que estava desperto, ouvira um barulho semelhante a um trovão, assustou-se e foi tentar ver o que havia acontecido. Na janela, ouviu os vizinhos dizendo que um carro acabara de ser carregado por um deslizamento a cerca de 50 metros do prédio. Quando três moradores estavam se aproximando do local para tentar ajudar as vítimas, aconteceu o deslizamento maior, que me acordou e que destruiu parte da casa do velejador Torben Grael, nosso vizinho.

Eles escaparam por um triz, como contava o homem com a perna ferida. A partir daí, a luz faltou, a chuva aumentou e os gritos de socorro na voz de uma mulher, que até então vinham do local do deslizamento, deixaram de ser ouvidos. Alguns moradores voltaram para seus apartamentos, mas muitos permaneceram na portaria, por medo de que até o prédio estivesse correndo alguma espécie de risco. Nós estávamos dispostos a ir embora, mas as notícias eram de que Niterói estava embaixo d’água, e nosso carro estava estacionado em frente a um terreno baldio. Como estava tudo vindo abaixo, ficamos com medo de mais terra descer enquanto tentávamos deixar o local. Ficamos ali, no escuro, sem saber o que fazer. Não apareciam nem os bombeiros, nem a defesa civil. Por volta das 2:30h, um homem se aproximou do prédio e se apresentou: “Aqui é o Axel Grael”. Era o irmão mais velho do Torben, ex-presidente da Feema.
“O Torben me ligou. Disse que estava com uma criança no colo, uma criança que veio com o barranco”, contou ele, referindo-se a toda a terra, pedras e parte de uma casa de classe média alta que haviam invadido a casa do irmão, e ressaltando que estava tentando ligar para os bombeiros, para a defesa civil, e não conseguia falar com quem quer que fosse. Depois de se aproximar do local do deslizamento, voltou ao nosso prédio dizendo que não havia como passar por ali, e que o único jeito era ir de barco (a casa de Torben Grael fica à beira da baía de Guanabara). Acompanhado de um médico e de uma fisioterapeuta que moram em nosso prédio, Axel foi-se embora na direção de um clube náutico que fica ali bem perto, e só voltamos a ter notícias deles muito depois. Enquanto isso, permanecemos na portaria eu, meu marido, o zelador do prédio, e mais um casal de moradores. Entre um susto e outro na escuridão, com uma rajada de vento mais forte, ou uma porta batendo (sempre achando que se tratava de mais terra correndo encosta abaixo), não paramos de tentar ligar para os bombeiros e a defesa civil, sem sucesso. A chuva não parava de cair.
Chegou a notícia de que no outro lado do nosso prédio havia acontecido o deslizamento de uma grande pedra. Percebemos que ficaríamos ali isolados, sem qualquer tipo de ajuda especializada. No meio da madrugada, uma viatura da polícia chegou até em frente ao prédio, fez a manobra perto do local do deslizamento e já arrancava para ir embora quando questionamos os policiais sobre a falta de socorro. Recebemos uma resposta atravessada: “Nem a gente consegue chegar em lugar algum. Tem que esperar.”. Lá pelas tantas, Torben e Axel Grael, alguns de seus familiares, o médico e a fisioterapeuta, nossos vizinhos, apareceram com uma criança de colo, dizendo que a mãe dela havia desaparecido e que o pai estava preso no carro que havia sido arrastado. Julgamos que a mulher que pedia socorro no início da madrugada estava morta sob os escombros. Eles pediram para avisarmos a quem aparecesse procurando a criança que ela estava em segurança, sob seus cuidados.
Mais tarde, Torben e Axel Grael retornaram e permaneceram um pouco conosco na portaria do nosso prédio. Quase em silêncio, todos esperávamos pela mesma coisa: a ajuda especializada que não apareceu. Depois, eles mesmos foram outra vez tentar ajudar o homem preso, mas não havia muito o que fazer. Já com o dia amanhecendo, Axel Grael voltou para dizer que eles enfiam haviam achado o pai da criança salva, mas que ele estava morto. Mais tarde soubemos que a mãe do bebê estava viva. Em pânico ela correu para pedir ajuda de parentes ou amigos que moram no bairro vizinho, provavelmente enquanto Torben e sua família tentavam ajudar seu marido. Só conseguimos deixar o local por volta das 11h da manhã, quando a chuva afinou. Até então, nem sinal de bombeiros, ou de coisa que o valha. Mais cedo passou por ali apenas um carro da defesa civil, mas ninguém desceu ou nos deu qualquer informação. Assim como fizeram os policiais, deram meia volta e foram embora. O homem morto, um homem de 29 anos de idade, pai de uma menina que mal nasceu e já renasceu, só foi retirado do local de sua morte na quarta-feira. Não porque havia tanta terra assim por cima dele, mas sim porque… enfim, não dá para entender porquê.

2 comentários:

Axel Grael disse...

Gostaria de agradecer o apoio de vocês e dos nossos ex-vizinhos do Edifício Canadá, no trágico dia relatado no ótimo texto postado. Naquele momento, tínhamos no grupo de pessoas na portaria do prédio um lugar amigo e um abrigo seguro e um lugar para a rápida reflexão sobre as próximas coisas a fazer naquela situação.

Tomei a liberdade de reproduzir o texto de vocês no meu Blog (com o devido crédito), que também coloco a disposição de vocês.

Um abraço,

Axel Grael
grael@rumonautico.org.br
www.axelgrael.blogspot.com
www.projetograel.org.br

Francisco Teixeira Xico Branco disse...

Desejo que todos se recuperem logo dessa lamentável tragédia...abraços e forças para tds ai do RJ.